quarta-feira, 6 de maio de 2009

AMOR

Difícil falar do amor.
Ele fugidio, abstraído, confuso

Um nome dado a um sentimento
Sintomático da Silva
Dos sobrenomes todos da vida.
E quem é ele, um vulto
Na legião dos rebelados?
Rompidos a sangue e fogo

Com suas práticas sentenciadas?


Difícil dirigir-se a ele,
Pairar sobre as montanhas,
Às vezes ir muito além,
E gritar por qualquer nome,
Até que se manifeste, o nefasto,
A má obra, peça inacabada.


E como se anunciarão seus dentes?
O seu semblante como se verá?
Algo incifrável venerador,
compassivo à dor.
Desconfiável, improvável que assim se mostre.


Deve vir como uma presa astuta,
Pulando de galho em galho, irritadiço,
Fazendo caras e bocas, brincando à toa,
Fazendo loas, cambalhotadas,
De nada ouvindo, tudo calando.


O amor vem iluzionando visões de barcos,
Em pleno mar, que ora aparecem,
Logo se esconde por trás das ondas,
Em descompasso, com os olhos turvos
Que sobem e descem desesperados.
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naeno*com reservas de domínio
ENXOTA

Enxota de sobre mim o teu olhar enigmático
Porque dele já sou cativo.
Teus cabelos são como um rebanho de ovelhas negras.
Tua fronde é como um templo canonizado
Teus olhos de pássaros entre teus cabelos
Teu ventre como um elevado no deserto
Envolto de açucenas do campo.
Teu nariz se parece uma torre guardiã
De onde se vê todo o mundo, abaixo.
Teus adornos descansam e riem pelo teu corpo.
E eu cativo nas tuas madeixas, especiosas
De ti nasce o amor, amada minha
De ti nasce a delícia e a volúpia da vida
Tu minha cúmplice, minha confidente.
Teu nome Gina, esposa minha
É suave aos meus ouvidos
E aplaca os meus temores.
Vem linda, minha, por amor
Teu coração se rachará de gozo
E assim, conhecerás sua imensidão.
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naeno*com reserva de domínio
CADÊ, CADÊ

Atento ao que não vejo, e quero,
Meus olhos se inquietam na procura
Como um falcão, distanciado e atento,
Busco pelos olhos dela a atormentar-me.
Cadê, cadê.

Que nunca encontro,
A provisão do meu destino,
O meu amor cadê, cadê...
Frente aos meus olhos não passou,
E pergunto ao meu palpitador cúmplice:
Cadê o meu amor, cadê?
Eu vivo o puro desespero,
Perder-se um amor é pior que perder-se,
Por que não mais há esperança,
Os sentidos ficam embaraçados,
E os olhos loucos, doidos a procurarem.
O amor, cadê, amor?

Pergunto a flor,
Desfolho a pétala, com tortura,
Procuro o amor, o amor... o meu amor
Cadê meu amor, cadê.
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naeno*com reservas de domínio

terça-feira, 5 de maio de 2009

DIALÉTICA

Todas as formas ainda se encontram em esboço.
Tudo passa em eterna transformação
E o universo anda rápido
Na última engrenagem conectado.
Arranquemos as árvores que se antepõem às outras
O som da lira muito antiga
Seu toque de música
É dado aos ouvidos e ao coração de todos.


Cada novo poeta que começa
Por escrever sua sentença, observe a fôrma.
Amarrai-lhe uma corda.
Uma vida velha, já com mais e mil anos
Pode ter seu complemento e apogeu
Só nesta vida que se inicia agora.
Nada poderá silenciar e se interromper
Nem quebrar a unidade do mundo.


Uma bactéria foi criada no princípio
Para que se infiltre em vários planos.
Nossos suspiros, nossos desejos, nossas dores
São fincados no campo que não tem fim
Pelo espírito calmo e sabedor de suas intenções.
A muitos, só a alternativa de lhe impor o lixo
É a saída, é a entrada, e uma saída sábia
Que lhes coube na tendenciosa partilha da vida
Senão uma angústia atroz sem pureza, e a doença da alma
Não escutaram a música do nascer do dia
Do farfalhar das árvores ao vento que não lhes toca
Nem assistiram à contínua promessa
Nem ao seqüencial parto das novas espécies.


Não lhe oportunizaram ver a noite desprovido de pavor
Guiam-se pelo castigo e a sombra de seus feitos.
Comendo pó e bebendo seu próprio suor
No entanto a transfiguração vem antes da morte.
Cada um deve assumí-la em carne e espírito
Para que a alegria se complete e se torne definitiva.
É preciso conhecer seu próprio abismo
Aquele a que seus pés estão ancorados
Amarrado por um cordão umbilical
Rompendo.
Tudo no mundo anda, e anda para esperar
Nossa existência é uma louca expectativa
Onde se encostam o princípio e o fim.
A terra terá que ser partida entre todos
Tudo anda para a o modelo perfeito:
A aurora é um sonho coletivo.
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naeno*com reservas de domínio
ENCOSTO


Não sou eu quem dá coronhadas e coices no leu
Parte desta criatura que fez de mim o seu fulcro.
Só ela
Quem me conhece sabe
Sou uma aveludada flor
Uma pessoa sem espinhos de floreira
Nem uma desgastadeira lixa de sambaíba.
Esta apaixonada da balbúrdia cavalga
Escanchada em meu macio ombro.
Valha-me!Enquanto ando a pé, terrestre
Peregrino atônito até a morte
Sem razão nenhuma para choro
Ou sofrimento embaçado ou desânimo.
Não sou eu quem dispara coices sem mira no tempo.
É esta desconhecida criatura
Que fez de mim seu encosto
E se apropriou do estojo de minha cara
E dela expeliu o estofo.
Quem desfecha desarrima
Sem abrir a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta selvanem sombra!
Que faz versos como quem morde.
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naeno* com reservas de domínio